
11.10 – Eu dou abrigo, alimento e esperança. Quem me conhece sabe da importância de minha existência. Já tive braços fortes, fui pujante e esplendoroso. Ainda respiro, sobrevivo, mas peço socorro! Eu tenho atualmente cerca de quatro quilômetros de extensão da minha foz, na praia Alegre ao Estivado. Estou localizado na zona urbana do município de Penha (SC).
No meu leito, hoje assoreado, ainda navegam com dificuldade, a Rosa Néia, Trovão Azul, Estrela do Mar, Riqueza, Helena, Dona Eda, Babilék, Vô Miguel, Pulga, Dois Irmãos e tantas outras embarcações de pequeno porte, como baleeiras, bateiras e botes. Dou minhas margens como abrigo. Sou atracadouro e porto seguro. Minhas certezas e meus lamentos podem ser confirmados pelo: Silvinho da Bicoca, Torresmo, Ata, Dêva, Pitinha, Zé Rosa, Carioca, Rubinho, Inácio Bagre, Eca do Zé da Ponte, Dérinho, David do Marisco, Nego Véio e tantos outros homens do mar.
Nas minhas águas, hoje, não tão límpidas, habitam robalos, paratis, bagres, camarões, siris... Nas pedras do meu caminho brotam ostras e sururus. No meu mangue, “meu pulmão”, caranguejos se entocam, se reproduzem e se protegem de seus predadores. Sou refúgio, fonte de alimento e berçário.
Também dou asas, casa e alimento para as saracuras, socós, garças, martim-pescador, biguás... Suas revoadas e cantos são a trilha sonora dos meus dias.
Há muito tempo atrás, dei amparo para sardinhas, garoupas e tainhas, que frequentavam meu manguezal para reprodução e se alimentarem do meu ser.
Minha foz é na Praia Alegre! Nas minhas curvas dou espaço para atracagem no canal da barra, no porto do Gero, do Ludo, do Ata... Vou “Rio Acima”, pelo Bairro Nossa Senhora de Fátima, por inúmeros loteamentos e no Estivado viro um canal que desagua no Gravatá. Já tive pinguelas, mas hoje tenho cinco passagens sobre mim, entre pontes e pontilhões, sendo a primeira na Praia Alegre, três no Bairro Nossa Senhora de Fátima e por fim no Estivado.
Recebo vida das morrarias de Penha, do bairro Nossa Senhora de Fátima, Santa Lídia, Praia Vermelha, Armação do Itapocoroy, Praia Alegre e Centro, com seus ribeirões e nascentes, que já não são tão pujantes.
Eu sou o Iriri, que tupi-guarani significa literalmente: ¨o que treme¨; ¨ ostra, concha¨; ¨o rio da ostra¨.
Saudade do meu Portinho
Por volta das décadas de 20 e 30, veleiros que faziam a pequena cabotagem, como o Evilásio, Pita e Marçal, aportavam e singravam minhas águas. Carregados de charque comprados no porto do Rio Tijucas, na cidade de Tijucas, na Grande Florianópolis. Estas cargas eram levadas para os portos de Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ). Na volta, esses pequenos veleiros, retornavam pra casa com carga de sal, carregadas na cidade de Cabo Frio (RJ) e vendidas em Tijucas, para que fossem transportadas por tropeiros para a Serra Catarinense e cidades fronteiriças gaúchas.
Na década de 60 eu ainda era grande e abrigava os pescadores na “Coroa da Praia Alegre”. Eu tinha um “Portinho” onde a Mira Mar, a Roseli, Rosa Santos, Maria Bonita, Carmem e outras “amigas” descansavam após lutas diárias em alto-mar. Eram baleeiras, botes e canoas de um pau só, que retornavam ao meu porto com cestos de camarões sete-barbas, pescadas, corvinas, anchovas, tainhas... Tempo bom, tempo de fartura.
Meu “Portinho” era local de abundância de frutos do mar. Era uma festa, tanto que ao meu lado a praia seria “Alegre”. Eram tempos felizes, de contos, histórias de pescadores e de “verdades” não comprovadas.
Crianças e jovens jogavam futebol na minha coroa, brincavam de pega-pega na maré baixa. As tarrafas sugavam do meu leito, tainhotas, tainhas, robalos, siris e bagres.
Mudança de curso
Na década de 70 tudo vai mudar. Chega em Penha a indústria pesqueira Krause. Mudam minha foz. Mudam meu curso. Meu “Portinho” dá lugar para aterros e sobre ele é construída a sede industrial da Cia de Pesca Krause. Sobre meu “Portinho”, agora, transitam caminhões carregados de pescados. Meu antigo leito dá lugar para câmaras frias, escritórios, fábrica de gelo e na minha foz constroem um trapiche. Já não eram mais canoas de um pau só, botes e baleeiras que ficam ancorados ao largo de minha foz, mas sim barcos pesqueiros de grande porte. A movimentação era grande.
Mas, após a evisceração de toneladas de pescados, meu leito é destino das escamas, cascas de camarão e da água sangrenta dos restos mortais dos pescados. Minhas águas já não eram as mesmas e vão perdendo vida. Fui ficando turvo, lamacento e comecei a exalar mau cheiro. Meu Portinho ficou na lembrança, mas hoje em dia ainda é local de festas e de alegria. Sou palco da Festa do Marisco.
Assoreamento
Já fizeram projetos de ampliação de molhes na minha foz. Um de cerca de 100 metros na margem esquerda e outro de 50 metros na margem direita. O que muitos não sabem é que mais de 330 famílias vivem da pesca e cerca de 80 pescadores pedem passagem pra mim para irem a alto-mar todos os dias.
Há! Meus amigos pescadores falam por mim. Reclamam e pedem soluções, mas muitas vezes não são ouvidos, assim como eu.
“O Iriri precisa urgentemente ser olhado com mais carinho. Necessita de um trabalho de desassoreamento desde sua foz até o Estivado. Está difícil navegar quando a maré está baixa. É comum nossas embarcações encalharem na boca da barra. O Iriri nos dá abrigo. Contribui para nossa sobrevivência. Ele pode estar com seus dias contados”, aponta Silvio José dos Passos, de 60 anos, o Silvinho da Bicoca, pescador desde criança.
José Rosa, diz que muitas construções avançaram até a margem do Iriri. “Eles cercaram e muitas edificações impedem as passagens de nós pescadores. Quando precisamos dar manutenção em nossas embarcações é sempre um problema. Não temos acesso com equipamentos de grande porte. Houve uma invasão de construções irregulares”, reclama o pescador.
“Só vejo uma saída para o nosso rio se tornar navegável. Seria a construções de dois molhes na foz. Já existem estudos e promessas, mas até agora nada. Enquanto isso, o Iriri sofre e nós pescadores também. Com os molhes ele teria mais vazão e a boca da barra não ficaria assoreada. Há dias que infelizmente o rio exala mau cheiro. É muito esgoto que jogam nele”, afirma o pescador Adelson Marilson Dias, de 54 anos e 38 de pesca.
“Tem que ser construída uma nova ponte na Avenida Nereu Ramos. Uma mais alta e mais larga. Hoje, quando passamos com nossas embarcações corremos o perigo de bater, pois com a maré baixa podemos encalhar e com alta passamos arranhando a ponte”, completa o pescador Inácio Manoel Vieira, de 79 anos.
Descarte e poluição
Me entristeço muito ao ver a população e pessoas sem cuidado com o meio ambiente usando meu manguezal e minhas margens como local de descarte. Virei um lixão em algumas regiões. São plásticos, sofás, sucatas de aparelhos eletrodomésticos, entulhos, papelões, pneus, roupas, redes, sem contar com esgotos clandestinos de inúmeras residências ribeirinhas. Estão me sufocando, me matando aos poucos. Mais de 50 por cento da população da minha cidade nem sabe que recebo deles os descartes de fossas e filtros. Vale lembrar, que Penha, segundo Censo de 2022 do IBGE, possui mais de 33 mil moradores fixos, mas que nas temporadas de verão esse número triplica!
Já não estou mais conseguindo, dar vida e alimento. Mas tenho esperanças.
Biodiversidade
Você sabia que o substrato do meu manguezal apesar de ser rico em matéria orgânica e nutriente, é hipersalino e hipóxico, com isso o mangue desenvolveu adaptações para esse ambiente; como as lenticelas que possibilitam trocas gasosas diretamente com o ar, raízes radiais e de suporte para dar sustentabilidade no sedimento lamoso, viviparidade para assegurar o sucesso reprodutivo e adaptações fisiológicas para suportar a grande variação de salinidade?
Sabia que tenho três espécies principais de mangue: o Rhizophora mangue ou mangue-vermelho – característica de solos lodosos, com raízes aéreas; Laguncularia racemosa ou mangue-branco - encontrado em terrenos mais altos, de solo mais firme, associado a formações arenosas e Avicennia schaueriana ou mangue-preto que possui raízes radiais com estruturas que auxiliam na troca gasosa?
Que meus solos são alomórficos muito pouco desenvolvidos, lamacentos, escuros e com alto teor de sais provenientes da água do mar, formados a partir de sedimentos fluviomarinhas recentes misturados com detritos orgânicos, de natureza e granulometria variada?
Que estas espécies vegetais e animais, que dou abrigo, além de auxiliar no desgaste (erosão) são essenciais?
Sabia que fixa o solo nas áreas em que ele ocorre, evitando assim, o assoreamento das praias?
Então, quem sabe a minha biodiversidade nestes novos tempos volte a ser realidade. Eu, Iriri estou confiante!
Fui alvo de estudo
De novembro de 2004 a abril de 2006 fui alvo de estudo, do hoje engenheiro Ambiental, André Costabile Silva Di Gregório. Em seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), pelo CTTMar (Centro de Ensino Superior de Ciências Tecnológicas das Terra e Mar), do Curso de Engenharia Ambiental da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), Di Gregório, pesquisou minha microbacia hidrográfica formada por meus afluentes, Rio Acima, Canais Sul e Leste construído pelo extinto DNOS (Departamento Nacional de Obras e Saneamento.
Na época, o então estudante de engenharia Ambiental constatou que eu já vinha recebendo, principalmente por indústrias de beneficiamento de pescados, intensa pressão com o descarte efluentes brutos com forte teor de matéria orgânica em estágio de degradação. Nos meus cursos d’agua já eram despejados reagentes como cloro que com a água pode se transformar em ácido clorídrico.
Também foi observado o avanço da urbanização a margem de minha área estuaria, já estava suprimindo a minha mata ciliar, também com o despejo de águas residuárias, ou melhor, de esgotos.
Em sete amostragens, de 2004 e 2006, o pH (Potencial Hidrogeniônico) variou entre 6,5 e 6,8, sendo que em duas ocasiões foram registrados valores no limite de acides. O que me salva ainda é a maré alta que traz do oceano a salinidade, resultando em uma menor demanda biológica de oxigênio.
Di Gregório concluiu e sugeriu que medidas de recuperação e conservação ambiental dos cursos de água, fiscalização sanitária, criação de parques municipais e estaduais nas áreas de nascentes e recomposição da mata ciliar.
Assim, eu poderia renascer vigorosamente.
Nova ponte
Neste ano recebi a notícia que uma nova ponte será construída na Avenida Nereu Ramos, na praia Alegre. O projeto contempla estudos geométricos, de terraplanagem, de tráfego, drenagem e sinalização. A ponte seria estaiada, suspensa por cabos e aços erguidos, fixos em hastes centrais de concreto, com 40 metros de comprimento.
Ela seria construída ao lado da atual estrutura, em uma conexão viária direta com a Avenida Ivo Silveira, a beira mar da Praia Alegre. Os investimentos são na ordem de R$13 milhões.
Esperança – ETE
Mas o que pode me dar vida mesmo e águas mais limpas é o projeto da implantação da rede de esgoto do meu município, que está sendo desenvolvido pela concessionária Águas de Penha. O projeto prevê 177 quilômetros de rede de captação, uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) e 16 elevatórias. O investimento é de R$ 100 milhões.
Na localidade do Estivado, onde aparentemente sou apenas um canal, será construída a ETE. Eu sei que serei importante e espero que meu leito não receba mais esgotos clandestinos e dejetos. Assim voltarei a dar vida aos muitos do meu ecossistema.
Com a ETE sei que as melhorias para o nosso meio ambiente vão mais além. Sei que investimentos em saneamento básico estimulam o turismo e impactarão diretamente na cadeia econômica do meu município. Uma certeza eu tenho: é a despoluição do meu leito e minha praia Alegre tenha boa balneabilidade.
Gostei de saber que a presidente da Águas de Penha, concessionária Aegea, Reginalva Mureb, afirmou: “A balneabilidade das águas, aliada a investimentos em infraestrutura, é determinante para a escolha de uma localidade, uma vez que as pessoas estão mais conectadas com a natureza, preocupadas com a saúde e com o meio ambiente”.
Sei também que a ETE/Iriri terá um sistema de tratamento por lodos ativados na modalidade SBR, com eficiência prevista de 95% de remoção de carga orgânica, além de remoção de nitrogênio e fósforo. Que a capacidade de tratamento terá uma média de 165 litros por segundo. Que a coleta vai abranger as localidades de: Mariscal, Praia Alegre, Praia Grande, Praia de Armação do Itapocoroy, bairro Nossa Senhora de Fátima e Centro.
A ETE/Iriri que será construída no Estivado vai atender 83% do esgoto da cidade, mas com a ampliação imobiliária pode aumentar este índice, segundo a Aegea. Fico feliz, pois assim poderei recuperar minha vegetação nativa, me revigorar organicamente e voltar a ser um berçário. Sei que meus manguezais são essenciais para a manutenção da vida marinha e terrestre, além de dar abrigo a uma avifauna.
Meu futuro
Espero ansiosamente pelas manhãs repletas de vidas saudáveis em meu leito, manguezais e margens. Que minhas tardes sejam tranquilas no reponto das marés. Que eu tenha noites bem dormidas. Que eu dê vazão aos sonhos dos homens do mar. Que eu volte a ser um braço forte para àqueles que respiram do meu oxigênio.
Tomara que meus soluços, sussurros e gritos de socorro não ecoem por muito tempo. Espero que eu seja ouvido e todos entendam que minhas lamentações são por dias melhores.
Para mim, a ETE pode significar “Esperança com Tecnologia Essencial”. Claro, que a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), pode ser ou será a minha ressurreição após tanto desprezo e agressões.
Por fim! Eu sou o Iriri! Ainda sou abrigo e alimento!
Por: Vilmar Carneiro
Fontes:
Adão Pinheiro – Jornalista da Buriti Jornalistas (Águas de Penha)
André Costabile Silva Di Gregório - Engenheiro Ambiental
Everaldo Moraes dos Santos – Engenheiro Sanitarista PMP
...---... (SOS – Código Morse)
Futsal Penha 2026 Flexa Negra entra em quadra amanhã pelo Sub-12 e Sub-16 no Municipal de Futsal de Penha
Correria da boa Cristiano Alexandrina será Penha na 35ª edição das Dez Milhas Garoto no Espírito Santo
Saúde Saúde do Pescador terá nova edição amanhã no Posto de Saúde do bairro Armação do Itapocoroy
Mín. 15° Máx. 24°

