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Famílias dos autores do hino de SC sugerem plebiscito para mudança da letra e da música

Projeto que tramita na Alesc alega que a composição não trata propriamente de um tema catarinense. Hino foi composto em 1892 por Horácio Nunes Pires (1855-1919) e José Brazilício de Souza (1854-1910).

27/08/2024 às 09h39
Por: Carneiro News Fonte: NSC
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Foto/Ilustrativa
Foto/Ilustrativa

27.08 - O hino catarinense, composto em 1892 por José Brazilício de Souza e Horácio Nunes Pires, recebeu oficialmente o título de canção-símbolo do Estado três anos depois, em 1895. Cerca de 130 anos depois, ganha força a ideia de fazer um novo hino. Projeto com proposta de emenda à Constituição de autoria do deputado Ivan Naatz (PL) tramita na Assembleia Legislativa, mas as famílias discordam da visão da Alesc.

O projeto que tramita na Alesc propõe um concurso para selecionar temas “mais catarinenses” – como belezas naturais, pujança econômica e diversidade cultural – em substituição ao que considera ter predominância do tema de caráter abolicionista.

As famílias de Horácio Nunes Pires e Brazilício de Souza discordam dos argumentos e sugerem uma saída mais popular: a realização de um plebiscito, o qual poderia ser feito junto com as eleições municipais.

“Um hino é a marca de um tempo”, diz Zeca Pires

Para o cineasta Zeca Pires, cujo tio-bisavô Horácio Nunes Pires fez a música, a ideia de mudança do hino não deve pertencer apenas a um deputado ou a um campo da política.

“A gente considera que, se existe realmente vontade do povo catarinense em mudar o hino, que se faça como outros estados: realizemos um plebiscito junto com as próximas eleições municipais. Hoje, a legislação eleitoral permite acrescentar uma pergunta. Bastaria questionar: você deseja que o hino de Santa Catarina seja trocado? Isso seria mais aceitável, pois mostraria a vontade da população” defende.

Zeca Pires lembra que “um hino é a marca de um tempo”. Para ele, há algo que considera um grande diferencial em relação aos demais estados brasileiros: “Temos um hino abolicionista. Isso é algo genial”.

Letra corajosa, diz bisneta do autor

Sueli Sepetiba, bisneta de José Brazilício de Sousa, diverge dos argumentos de que o hino teria sido composto no Rio de Janeiro, que saúda algo distante (abolição) dos catarinenses e que a obra teria participado de um outro concurso não sendo vencedora.

Amante da música, Sueli explica sobre a existência, no Museu Cruz e Sousa, do piano que pertenceu a Brazilício, e no qual ele compôs o hino. No instrumento há, inclusive, uma placa comemorativa. Quanto ao argumento de que “a letra não representa o povo catarinense”, ela também discorda:

“A letra é claramente um elogio à liberdade, à igualdade, à cidadania e ao movimento abolicionista. Uma letra, no mínimo, muito corajosa para o tempo em que foi escrita, e que segue representando até os tempos atuais o pensamento do povo catarinense”, disse.

Sueli também reage ao conceito de “perdedor”, como declarou ao colunista Ânderson Silva, na sexta-feira (23), o governador Jorginho Mello, ao se posicionar favorável à mudança do hino.

“A composição não participou de nenhum concurso. Não há sequer um registro histórico sobre esta afirmação. A música foi composta e, juntamente com a letra, oferecida ao governador Lauro Müller, e apresentada em reunião social na residência de José Brazilício”, afirma Sueli Sepetiba.

A reportagem entrou em contato com a assessoria do governador Jorginho que confirmou o posicionamento.

Deputado prevê votação em plenário em setembro

O deputado Ivan Naatz (PL) está confiante. Ele explica que a Mesa Diretora estabeleceu por meio da procuradoria um roteiro que começou com a apresentação da PEC. A etapa já foi concluída e realizada audiência pública.

“A PEC autoriza a abertura do concurso, que será premiado, e deve ser votada em setembro. Aberta a etapa, será escolhida uma música (e letra) pela comissão julgadora, a qual vai ser apresentada à sociedade numa nova audiência pública”, explica o deputado.

Depois de realizada a audiência de apresentação da proposta do novo hino a PEC será votada em plenário, onde vai precisar de 21 votos (40 deputados) para ser aprovada e estabelecido o novo hino de Santa Catarina.

Diferente de hoje, governadores se mostraram contrários

O tema mudança do hino de Santa Catarina tem sido recorrente. A primeira proposta foi do padre Ney Brasil Pereira (1930-2017), em 1992 – ano do centenário do hino. O religioso encaminhou ao governador em exercício, Antônio Carlos Konder Reis, uma exposição de motivos na qual enumerava seus argumentos, mas a ideia não prosperou.

Fez o mesmo nos governos seguintes, mas recebeu posição contrária do Conselho Estadual de Cultura (CEC), na gestão de Esperidião Amin (1999-2002).

Além de destacar a Abolição, o hino faz referência à Proclamação da República, fatos destacados no parecer do professor universitário Carlos Humberto Corrêa, numa das tentativas de mudança, em 2004.

“Hino Nacional ou Estadual é símbolo da nação ou do Estado e não pode ser mudado cada vez que alguém não gosta de sua música ou letra”, escreveu o então conselheiro e autor dos livros “Santa Catarina – Um Estado entre Duas Repúblicas”, “Os Governantes de Santa Catarina de 1739 a 1982” e “Jerônimo Coelho – Um Liberal na Formação do Segundo Império.

O professor, que presidiu o Instituto Histórico e Geográfico, foi adiante:

“Por que não se mudou o nome do Rio de Janeiro, depois que se constatou que a Baía de Guanabara não era a foz de um rio, como se achava no século XVI?”, questiona.

Em 2010, o então deputado estadual Gilmar Knaesel voltou à carga, mas de novo o CEC votou contrário. Há uma diferença na política atual: desta vez, o governador de Santa Catarina é favorável à troca do hino.

Confira a letra atual do hino de Santa Catarina

Hino de Santa Catarina

Composição: Horácio Nunes Pires (letra) / José Brazilício de Souza (música)

Sagremos num hino de estrelas e flores

Num canto sublime de glórias e luz

As festas que os livres frementes de ardores

Celebram nas terras gigantes da cruz

Quebram-se férreas cadeias

Rojam algemas no chão

Do povo nas epopeias

Fulge a luz da redenção

Quebram-se férreas cadeias

Rojam algemas no chão

Do povo nas epopeias

Fulge a luz da redenção

O povo que é grande, mas não vingativo

Que nunca a justiça e o direito calcou

Com flores e festas, deu vida ao cativo

Com festas e flores, o trono esmagou

Quebrou-se a algema do escravo

E nesta grande nação

É cada homem um bravo

Cada bravo, um cidadão

Quebrou-se a algema do escravo

E nesta grande nação

É cada homem um bravo

Cada bravo, um cidadão.

 

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