
O filme catarinense “Virtuosas”, produzido pela Novelo Filmes e dirigido por Cíntia Domit Bittar, foi o primeiro de Santa Catarina a ser selecionado para a mostra competitiva de longas de ficção da Première Brasil do Festival do Rio, o maior festival de cinema da América Latina, recebendo críticas positivas da imprensa especializada. Essa é a segunda vez que a empresa produtora e a diretora criam um marco para o estado, sendo a primeira em 2011, com o primeiro curta catarinense, “Qual Queijo Você Quer?”, na principal mostra competitiva, levando o Troféu Redentor de Melhor Filme.
Depois, a produção foi exibida em uma das principais mostras cinematográficas do país em sua 49ª Mostra de Cinema Internacional em São Paulo, recebendo a terceira edição do Prêmio Netflix na cerimônia de encerramento do evento, que ocorreu na última quinta-feira (30), e será disponibilizado, após sua carreira no circuito de cinemas no segundo semestre de 2026, para mais de 190 países pela plataforma de streaming, em formato dublado e legendado para dezenas de idiomas.
“Estamos imensamente felizes com esse prêmio, que reconhece não somente as qualidades técnicas e artísticas do filme, mas seu potencial de diálogo com o público. Além disso, nos deixa felizes por ser um filme catarinense, ou seja, fora do tradicional eixo produtivo, realizado por mulheres e que lança do terror e da ironia em uma trama que se desenrola no contexto de mulheres ultraconservadoras”, comenta a cineasta Cíntia Domit Bittar.
Diretora Cíntia Domit Bittar e produtora Ana Paula Mendes, da Novelo Filmes; e Paula Gomes, da distribuidora e coprodutora Olhar Filmes; recebem o Prêmio Netflix. Crédito Mario Miranda Filho, Agência Foto
“Virtuosas” é um terror com um humor ácido que provoca o público ao transitar por diferentes gêneros, promovendo uma narrativa de suspense. A produção se passa em um retiro VIP para mulheres que estão em busca de sua melhor versão e traz Bruna Linzmeyer, Maria Galant e Juliana Lourenção no elenco principal.
Linzmeyer dá vida à Virgínia Heinzel, uma coach que tem como foco o público feminino conservador e que prega sobre os valores da mulher virtuosa do Provérbios 31 e seu papel na família e na sociedade. Um desconforto rapidamente se instala e, conforme o retiro avança, a tensão cresce na tela por meio do fascínio e inquietação do público diante das atitudes das personagens, surpreendendo-se com até onde podem chegar.
A produção foi inteiramente gravada em Florianópolis, com locações no Canto da Lagoa, na estrada do Rio Vermelho, na Rua Tenente Silveira e imagens aéreas da Av. Beira-Mar Norte e Ponte Hercílio Luz.
“Eu acho que a ideia de mulher virtuosa, muito conhecida no exterior como ‘Trad Wives’, as mulheres tradicionais, é uma leitura, uma interpretação que elas fazem do Provérbios 31, que condiz, na visão delas, com uma mulher subserviente ao marido, à família. E está tudo bem, mas o problema é quando esse lado é visto como a única possibilidade do ser mulher”, disse Bruna Linzmeyer durante a estreia do longa no Festival do Rio.
“O filme vai provocar um debate muito necessário, porque não interessa se você é uma mulher virtuosa, o que a produção faz questão de abordar é sobre a índole dessas personagens”, comentou Juliana Lorenção.
O elenco ainda conta com Sarah Motta, Brisa Marques, Nenê Borges, Fernando Bispo e participação especial de Gabriel Godoy.
“É interessante e desafiador ampliar o conceito do olhar feminista para o cinema a partir do terror, já que o lugar comum disso é a mulher que sobrevive, a mulher que é possuída, a mulher que dá a luz ao demônio, a que vence o mal e por aí vai. Acredito que uma forma de contribuir é criar mulheres ambíguas, por vezes sem qualquer escrúpulo, porque são demasiadamente e monstruosamente humanas. Isso também é fortalecer mulheres no cinema, pois trazer a complexidade e a contradição é trazer humanidade. E é também colocar as personagens mulheres em foco, já que é sobre elas e não sobre algum personagem homem que está ali". Cíntia acrescenta que "É empolgante ver o gênero em alta mais uma vez", comenta a diretora Cíntia Domit Bittar.
“Acredito que ‘Virtuosas’ vai surpreender por apresentar um tema fresco, ainda pouco explorado na cinematografia nacional, mas muito presente e forte na vida de milhares de pessoas - que é o movimento de mulheres cristãs ultraconservadoras de classe média, muitas inclusive já imbricadas na política institucional do país. Este é um excelente momento para colocarmos o filme na rua e afirmar o gênero como uma das principais apostas da Novelo Filmes”, afirma a produtora e produtora executiva Ana Paula Mendes.
O filme foi premiado no programa “Goes to Cannes”, uma vitrine de filmes inéditos ou em pós-produção realizada pelo Marché du Film do Festival de Cannes deste ano, dentre 25 títulos de 5 países. O longa foi um dos cinco projetos brasileiros escolhidos por meio do edital da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), com curadoria do Festival do Rio.
O projeto foi viabilizado com recursos do edital Prêmio Catarinense de Cinema, da Lei Paulo Gustavo e do FSA. A distribuição é da Olhar Filmes e Filmes do Estação.
Ficha Técnica:
“Virtuosas” (Dir. Cíntia Domit Bittar / Ficção / 86’ / Brasil / 2025)
Roteiro: Cíntia Domit Bittar e Fernanda de Capua
Elenco: Bruna Linzmeyer, Juliana Lourenção, Maria Galant, Sarah Motta, Brisa Marques
Empresa Produtora: Novelo Filmes
Produção: Ana Paula Mendes, Cíntia Domit Bittar
Coprodução: Olhar Filmes
Produção Associada: Cajamanga
Direção de Fotografia: Gabriel Rinaldi
Montagem: Cíntia Domit Bittar
Direção de Arte: Dicezar Leandro
Figurino: César Martins
Som: Daniel Becker (Som direto), Tiago Bello (Desenho de Som e Mixagem)
Música: Pedro Santiago, Daniel Becker
Distribuição: Olhar Filmes e Filmes do Estação
Quem é Dicezar Leandro?
Do curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Regional de Blumenau (Furb) ao cargo de diretor de arte em São Paulo com mais de dez prêmios ao longo da carreira no cinema. Essa é a trajetória de Dicezar Leandro, coordenador e professor na Academia Internacional de Cinema (AIC), que recentemente assinou a direção de arte na produção do filme catarinense “Virtuosas”, vencedor do prêmio “Goes to Cannes” no Marche du Film 2025, na França.
Catarinense nascido em Joinville e criado em Penha, ele também é egresso da Furb. Em 1990, o presidente na época, Fernando Collor de Melo, extinguiu a Embrafilme e, por isso, a produção cinematográfica no país sofreu uma crise e só foi retomada cinco anos depois. Isso aconteceu justamente quando Dicezar precisava escolher uma carreira. Por isso, cursou Publicidade e Propaganda e conseguiu um primeiro emprego em uma agência.
Ao se formar, tornou-se freelancer como designer gráfico, foi em busca de um mestrado e concluiu especialização na UFSC em Florianópolis e se mudou para o exterior anos depois. Em Londres, trabalhou em tendas de festivais famosos como Glastonbury e Secret Garden, ajudando na montagem da cenografia. Após viajar pelo mundo e com uma nova bagagem de conhecimento, ao voltar para São Paulo, Dicezar se deparou com o cinema nacional em ascensão e percebeu que era o momento de investir no antigo sonho.






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