
Barra Velha completa em 2026 o centenário de um dos episódios mais singulares e pouco conhecidos de sua história: o movimento messiânico que, no distante ano de 1926, provocou tensão entre os moradores, mobilizou forças policiais e terminou com a prisão de seus principais líderes. Conhecido como o episódio dos “Fanáticos de Barra Velha”, o acontecimento chegou a ganhar destaque na imprensa nacional e terá uma programação preparada pelo seu principal pesquisador, o professor José Carlos Fagundes, o Cacá, para marcar esse fato histórico.
Em 1926, o então pacato distrito de Barra Velha (que bem antes disso era uma freguesia apontada com nome de “Glorioso São Pedro de Alcântara e Virgem Imaculada Nossa Senhora da Conceição da Barra Velha”, de acordo com o decreto provincial nº 510, de 27 de abril de 1861) pertencia ao município de Paraty — atual Araquari.
Essa freguesia foi, segundo Cacá pontuou ao Carneiro News, palco da atuação de um grupo religioso liderado pelo pescador e curandeiro Manuel Francisco de Barbara, conhecido como “Mané Barbara”, morador de Itajuba. O grupo atribuía poderes sobrenaturais ao líder, fazia profecias sobre desgraças e acontecimentos futuros e seguia personagens considerados sagrados pelos integrantes do movimento.
Entre eles estava Amador de Moura, um garoto de 16 anos, morador do Rio do Peixe, apresentado pelos seguidores como a própria “reencarnação de Jesus Cristo”. Outra personagem de destaque era Antônia André Soares, da Mantiqueira, que teria sido consagrada como uma espécie de porta-voz de Nossa Senhora.
Segundo o historiador, o episódio ganhou proporções maiores à medida que aumentaram as hostilidades entre os integrantes do movimento e parte da população local.
“Era um movimento messiânico que surgiu em uma comunidade bastante pequena e que acabou provocando medo e preocupação entre os moradores. As práticas dos chamados beatos passaram a ser vistas com desconfiança e, diante dos conflitos, o caso chegou às autoridades”, frisa Cacá, que em 2017 lançou um livro sobre o tema, “Notícias dos Fanáticos de Barra Velha” (Scortecci Editora, 78 páginas), e se torna então o principal pesquisador do episódio histórico.
As denúncias sobre o movimento religioso chegaram à sede do Município e despertaram a preocupação das autoridades estaduais, especialmente em um período ainda marcado pelas lembranças e consequências da Guerra do Contestado. O então governador de Santa Catarina, Adolpho Konder, determinou uma intervenção policial no distrito.
Em Joinville, um destacamento militar fortemente armado, comandado pelo capitão Vergílio Dias, foi mobilizado para prender os integrantes do grupo. Em Barra Velha, uma milícia de aproximadamente 30 homens, e que teve participação dos chamados conselheiros locais – entre eles, Astrogildo Aguiar, Pedro Policarpo e Anastácio Pereira. Essa milícia juntou-se às forças policiais para dar apoio à operação.
A ação terminou com resistência. Mané Barbara e seus seguidores foram presos e conduzidos ao presídio de Joinville, enquanto os principais líderes do movimento foram posteriormente transferidos para a cadeia em São Francisco do Sul.
Episódio chegou à imprensa nacional
Apesar de praticamente desaparecer da memória coletiva local ao longo das décadas, o episódio teve repercussão muito maior na época. Jornais de circulação nacional acompanharam o caso.
O periódico A Noite, publicado no Rio de Janeiro, então capital federal, estampou em sua primeira página a manchete: “300 fanáticos percorrem localidades catarinenses guiados por um falso monge”, cobrando providências das autoridades catarinenses.
Para Fagundes, o contraste entre a repercussão nacional daquele momento e o esquecimento posterior é um dos aspectos mais intrigantes da história.
“É curioso que um acontecimento que chegou à primeira página de um jornal da capital do País tenha praticamente desaparecido da memória dos próprios barra-velhenses. Quando comecei a pesquisar o assunto, encontrei aquilo que considero um verdadeiro pacto de silêncio”, revela ele.
O historiador ressalta, porém, que o termo não deve ser entendido como uma conspiração organizada para esconder os acontecimentos.
“Não era um pacto de silêncio voluntário ou intencional. Era algo transmitido entre os moradores mais antigos. Alguns conheciam a história, outros lembravam de alguma coisa, mas havia quem desconversasse ou simplesmente não quisesse falar sobre o assunto”, comenta Cacá, que saiu então à cata de testemunhas ainda vivas do episódio – muitas delas em idade bastante avançada – para compor seu livro.
Centenário pretende recuperar a memória
A passagem dos 100 anos do episódio representa, segundo Fagundes, uma oportunidade para retirar o acontecimento do campo das lendas e inseri-lo definitivamente na história de Barra Velha. O historiador prepara atividades e eventos alusivos ao centenário.
A intenção, na visão dele, é ampliar o conhecimento sobre um episódio que envolve religiosidade popular, conflitos comunitários, medo social e repressão estatal em uma Santa Catarina ainda marcada pelas consequências do Contestado.
“Depois de 100 anos, a história ainda é desconhecida por grande parte da população de Barra Velha. O centenário é uma oportunidade para revisitar esse episódio com responsabilidade histórica, compreender quem eram essas pessoas, no que acreditavam e por que o Estado reagiu daquela maneira”.






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