
Por muitos anos, o debate sobre saneamento básico no Brasil esteve concentrado na ausência de infraestrutura. Falava-se — com razão — da falta de redes, de estações de tratamento e de investimentos. Hoje, mesmo com avanços importantes no setor, um desafio igualmente relevante ganha espaço: o uso correto dos sistemas de esgotamento sanitário já implantados. E esse desafio não é apenas técnico ou institucional — é coletivo.
Dados nacionais mostram que o Brasil ainda convive com índices insuficientes de coleta e tratamento de esgoto, mas também revelam outro problema menos visível: parte significativa das falhas operacionais ocorre por uso inadequado das redes. Materiais que jamais deveriam ser descartados no vaso sanitário ou na pia — como fraldas, lenços umedecidos, absorventes, óleo de cozinha, restos de obra e produtos químicos — são responsáveis por entupimentos, extravasamentos e danos a equipamentos projetados exclusivamente para receber esgoto doméstico
As consequências vão muito além do transtorno pontual. Redes obstruídas aumentam custos de operação, reduzem a eficiência do tratamento e ampliam o risco de contaminação do solo, dos rios e do mar. Em cidades litorâneas ou turísticas, isso significa prejuízos ambientais diretos e impactos econômicos relevantes. Em qualquer cidade, significa mais risco à saúde pública, com a proliferação de doenças de veiculação hídrica que poderiam ser evitadas.
É preciso reforçar um ponto central: saneamento não termina na obra. A rede começa na residência. Cada ligação correta, cada descarte consciente e cada atitude responsável dentro de casa fazem diferença no funcionamento de todo o sistema. Quando um morador descarta óleo na pia, o custo não fica restrito à sua casa — ele se espalha por toda a coletividade. Quando o sistema falha, todos pagam a conta, seja em forma de tarifas mais altas, seja em danos ambientais ou em perdas de qualidade de vida.
Por isso, falar de esgotamento sanitário é falar de corresponsabilidade. O poder público e as concessionárias têm o dever de investir, operar e fiscalizar. Mas a sociedade tem o papel fundamental de usar corretamente esse serviço essencial. Cidades mais saudáveis, sustentáveis e resilientes não se constroem apenas com grandes obras, mas com pequenas escolhas diárias feitas por milhões de pessoas.
Cuidar do esgoto é cuidar da saúde, do meio ambiente e do futuro. E essa responsabilidade começa, literalmente, dentro de casa.
* Reginalva Mureb é presidente da AEGEA SC

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