
O atacante haitiano Garrinsha, do Joinville Esporte Clube, vive um dos melhores momentos da carreira. Líder do Grupo 15 da Série D, o camisa 7 alimenta a expectativa de ser observado pela comissão técnica da Seleção Haitiana, que voltou a disputar uma Copa do Mundo após 52 anos.
O Haiti está no Grupo C do Mundial, ao lado de Brasil, Escócia e Marrocos. Aos 24 anos, Garrinsha nunca foi convocado para disputar uma Copa, mas sonha em representar o país na competição. O ge conversou com o jogador, que carrega no nome uma homenagem ao Anjo das Pernas Tortas.
É claro que não é apenas uma letra que separa o Garrinsha do JEC do bicampeão mundial Garrincha, ídolo do Botafogo e campeão das Copas de 1958 e 1962. Mas a homenagem feita pelos pais do haitiano caiu como uma luva. Aos 24 anos, ele atua na mesma posição de Mané: ponta-direita, destro e com a histórica camisa 7 às costas.
“O nome veio por causa dele mesmo. Meu pai é fã da seleção brasileira e gostou da história do Garrincha. O nome do meu pai é Garri e jogou profissionalmente no Haiti e acompanha até hoje a Seleção Brasileira. Ele não viu o Garrincha jogar, porque é novo, mas se encantou pela história e pelo talento dele”, disse jogador.
E as coincidências não param por aí. Assim como Garrincha, o atacante do JEC também tem história no futebol do Rio de Janeiro. Ele chegou ao Brasil por meio do Pérolas Negras, clube criado como projeto social no Haiti e que se profissionalizou no país em 2016. Garrinsha recebeu a oportunidade em 2019, quando desembarcou no Rio para atuar nas categorias de base, antes de se profissionalizar no ano seguinte.
Desde então, passou por São Bernardo, Sampaio Corrêa, Penapolense, Aymorés, Comercial e Petrópolis. Antes de ser emprestado ao JEC, disputou o Campeonato Carioca pelo Bangu, no início deste ano, e foi notado pela Seleção Haitiana ao marcar na estreia, na vitória por 2 a 1 sobre o Flamengo. Outra coincidência com o artilheiro da Copa de 1962, que marcou 12 gols contra o Rubro-Negro ao longo da vitoriosa carreira.
“Eu jogo pelo povo do Haiti, porque são guerreiros e o momento que o país vive é difícil, com uma guerra civil há mais de cinco anos. A classificação para a Copa está dando muita alegria para eles. Eu sei que meu trabalho tá sendo visto. Não vou criar expectativa, mas quero aumentar o nível. Se não for para a Copa, sei que mesmo assim a Seleção está no meu futuro”, afirma o atleta.
Sonhando com o Mundial, Garrinsha tem o coração voltado à sua nação, onde cresceu e viveu momentos turbulentos, como o terremoto de 2010, que vitimou mais de 300 mil haitianos. Ao mesmo tempo, o sentimento também é de gratidão ao país que o acolheu.
“Desde quando eu estava no Haiti, sempre gostei da seleção brasileira. Meu ídolo no futebol é o Neymar. Não vou dizer que o coração está dividido, eu torço pelo Haiti. Mas também quero que o Brasil passe e chegue longe. Meu sonho sempre foi jogar futebol profissional. Hoje meu sonho é jogar uma Série A e, quem sabe, no futuro, ir para a Europa”, relata Garrinsha.
Dentro de campo, Garrinsha vive bom momento, recebe carinho da torcida do Joinville e tem chamado atenção pela entrega na Série D do Brasileiro. Com a expectativa de Copa do Mundo, a comemoração com os familiares ainda acontece à distância. Mas caso seja realmente convocado, poderá matar a saudade em junho.
“Meus pais estão nos Estados Unidos. Em 2021, quando começou a guerra civil no Haiti, eles ficaram com medo, queriam vir para cá para ficar comigo, porque eu já estava há dois anos aqui. Como não conseguiram o visto para cá rápido, havia um programa de reagrupamento familiar, meu tio estava lá e foram junto com ele. Se Deus quiser, estarão comigo este ano, a saudade está grande, seis anos sem ver eles pessoalmente, desde que vim para o Brasil”, finaliza.
O Joinville volta a campo no dia 16 de maio, em duelo catarinense contra o Santa Catarina, no Estádio Alfredo João Krieck, em Rio do Sul, pela 7ª rodada da Série D. O Tricolor lidera o grupo, com 11 pontos, três a mais que o vice-líder Cascavel, e ainda está invicto, com três vitórias e dois empates.
Apesar de ainda não ter balançado as redes nem contribuído com assistências, Garrinsha vem se tornando um dos xodós da torcida pelo estilo driblador e pela garra em campo. Atributos que, segundo ele, também podem ajudar a Seleção Haitiana a brilhar na campanha do Mundial de junho.
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