Terça, 13 de Outubro de 2026
17°

Chuva

Penha, SC

Perda

Perda Cultural: Senhor atropelado em Itajuba é Tonho Martim, conhecedor de raízes e ervas e adepto da tradição da cachaça com milome

Perda Cultural: Senhor atropelado em Itajuba é Tonho Martim, conhecedor de raízes e ervas e adepto da tradição da cachaça com milome

21/07/2021 às 19h09 Atualizada em 21/07/2021 às 22h09
Por:
Compartilhe:
Tonho Martim com a esposa Leonor, na casa de Cacá Fagundes, com litros da cachaça com a raiz
Tonho Martim com a esposa Leonor, na casa de Cacá Fagundes, com litros da cachaça com a raiz "mil homens", ou "milome" - Foto/Cacá Fagundes

21.07 - Uma das figuras mais icônicas de Itajuba foi a vítima fatal do acidente ocorrido na BR-101, no quilômetro 90 da rodovia, em frente ao empreendimento Parada Ferretti, na noite de terça-feira, dia 20 de julho. Antônio Rosário, o popular Tonho Martim, 67 anos de idade, tradicional mateiro do bairro Itajuba, extrativista e coletor de ervas, era um dos moradores mais tradicionais da comunidade, e sofreu um atropelamento por volta das 21h30.

Ele foi atingido por um veículo com placas de Florianópolis, que transitava no sentido Barra Velha/Balneário Piçarras, conforme noticiado pelo CARNEIRONEWS. Antônio voltava da casa de uma das filhas, quando foi atingido pelo veículo na marginal da rodovia.

Ao lado da esposa Leonor, ele era o principal divulgador da tradição religiosa da produção e consumo da “cachaça com milome”, que praticamente desapareceu em todo o litoral catarinense e ocorre sempre na Sexta-feira Santa.

Segundo o historiador, professor e amigo pessoal Cacá Fagundes, Martim era muito mais do que o divulgador da bebida – era um conhecedor profundo das ervas do interior de Barra Velha, das quais produzia chás e bebidas diversas. Também extraía mariscos das pedras e guaiás, e com essa atividade, criou os filhos.

“Eu tinha um carinho todo especial pelo casal; todo mundo conhece eles em Itajuba e nós nos criamos convivendo com eles e os filhos”, detalhou Cacá. O saudoso Artur Fagundes, ex-vice-prefeito de Barra Velha, pai de Cacá, e o irmão do historiador, Cezar Fagundes, eram também compadres do casal.

Cachaça com milome

Antônio se esforçava para, a cada ano, preservar um dos hábitos mais antigos dos fieis e devotos do Cristianismo em Barra Velha – e que vem desaparecendo: tomar cachaça com cipó-milome, nas primeiras horas da manhã da Sexta-feira Santa.

Segundo Cacá, o imaginário popular acreditava que quem se aproximava do combro das praias e extraía a raiz miraculosa na noite anterior à Sexta-feira Santa, poderia ver o vegetal estralando e soltando luzes.

É uma velha simpatia que tem também o poder depurativo de curar mazelas do corpo após o cipó ser raspado numa tigela com cravo e alho, e depois acrescentado a cachaça. A bebida, após esse preparo, é socializada pelos participantes da tradição, e representaria o amargor da dor sofrida por Jesus. Com a morte de Antônio, Cacá teme pelo desaparecimento completo da tradição na cidade de Barra Velha.

Conforme os Bombeiros Militares, Antônio Martim morreu na própria rodovia, e foi encontrado caído no capô do veículo, com a cabeça dentro do para-brisa. Antônio sofreu traumatismo craniano, com lesões nos membros inferiores e fraturas na mão. O motorista do carro saiu ileso do acidente.

Por: Juvan de Souza Neto

Fotos: Cacá Fagundes

[gallery link="file" size="medium" ids="13912,13913,13914"]

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.